Precisamos falar sobre: Ikoku Nikki (Journal With Witch).
Quando pensamos em animes, muitas vezes (quase sempre, na verdade) os destaques são animes de ação focados para o público masculino. Existe uma grande parcela (muitas vezes ignorada) de pessoas que gostam de animes puxados para o dia a dia e reflexões. Eu gosto muito de animes que puxam o lado psicológico e trazem lições importantes que nos fazem refletir e pensar melhor sobre situações e vivências que passamos muitas vezes, mas não lidamos de uma forma saudável.
Esse anime traz uma reflexão profunda sobre o luto. Sobre o processo de descoberta do mundo sem alguém que amamos que se foi.
Quando perdi meu avô, não processei como seria ir à casa da minha avó e não vê-lo sentado escutando algum jogo de futebol no rádio. Fiquei muito tempo sem visitar minha avó (uma péssima decisão) por medo de encarar a realidade de que ele se foi.
Quando perdi minha avó, perdi o chão que me sustentava. Mal tinha processado o luto do meu avô e outra pessoa importante também havia morrido.
Ao passar dos anos, enquanto crescia, aconteciam enterros de parentes aos quais eu não era apegada, então acabava ficando triste vendo minha mãe estar triste e não pela pessoa em si. Sentia-me estranha e indelicada por não conseguir chorar por pessoas que eram da minha família, apesar de não ter tido muito contato. Mas, quando meus avós se foram, parecia que eu nunca pararia de lembrar dos dois em tom de tristeza.
O luto vem de formas diferentes para cada um, mas para mim seguiu um padrão: primeiro, a negação; em segundo, a dor das lembranças; terceiro, a aceitação e sofrimento por finalmente notar que eles não voltariam; e, em quarto, a aceitação que vem quando nos lembramos com carinho e amor por quem se foi, com sofrimento, mas de forma moderada e mais saudades do que dor.
Hoje em dia, me lembro dos bons momentos que tivemos, mas sem me sentir desesperançosa com o futuro.
O anime me fez lembrar dessas coisas, o processo da Asa para aceitar que os pais morreram é muito real. Ela entra em consenso consigo mesma aos poucos.
Há várias cenas em que ela se vê em um deserto sozinha. Aos poucos, vai notando que existem coisas importantes e que, mesmo que ela não compreenda, deve passá-las para crescer.
O anime é em forma de lembranças, onde ela se encontra em um café relembrando os velhos tempos com a amiga.
Makio, a tia que acolhe a personagem principal após o acidente, se vê também em um dilema, sempre relembra cenas em que a irmã era cruel e tentava justificar sua indiferença em relação à morte da irmã mais velha usando essas lembranças. Com o passar dos episódios, você pode notar que ela não consegue ser indiferente como pensava que era; e, também, teve de encarar os próprios sentimentos em relação à família, que não eram tão acolhedores e amorosos quanto ela precisava. Ela nota que, mesmo não tendo justificativa para as ações da irmã, houve motivos para ela pensar e agir daquela maneira, mesmo que ela não os entendesse.
O anime explicita muito que as pessoas são diferentes, e que cada um tem sua maneira de lidar com desconfortos e situações cotidianas. Asa se sente confusa em relação aos sentimentos para com a morte de seus pais porque eles eram muito diferentes do que ela esperava que fossem.
No final, se vê como cada personagem evoluiu ao passar da trama e se desenvolveu enfrentando cada um seus demônios. Mas, principalmente, como tudo estava interligado, já que o luto de Asa gerou gatilhos para pensarem melhor sobre o que acontecia e sobre a vida no geral.
O anime é aconchegante e fofo; trata dos assuntos de forma leve (sem desrespeitar ou tratar com indiferença) e nos revela como é importante encararmos nossos sentimentos para podermos seguir em frente. Ignorar o elefante na sala é uma forma de lidar, mas não é a mais indicada e saudável. Mesmo que não perdoemos, devemos tentar entender o que cerca o assunto e nos salvar do fundo do poço onde nos colocamos ao demonizar assuntos que nos adoecem, em vez de senti-los e caminhar para o bem-estar.
Indico muito essa obra maravilhosa. Até a próxima!

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